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segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Os "caretas" da OAB e a arte



No último dia 25, a 29º Bienal abriu as portas para o público em São Paulo. Entre as obras, uma série, em particular, causou certa polêmica. Trata-se da série “Inimigos” do artista pernambucano Gil Vicente, que, aliás, salvo engano, já foi exposta aqui em Natal há alguns anos atrás, Nela, numa espécie de autoretrato, o artista exibe a si mesmo com arma em punho prestes a alvejar altas personalidades da política mundial e brasileira; Lula, FHC, o Papa Bento XVI, o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, a rainha da Inglaterra, Elizabeth II, e o ex-primeiro ministro de Israel, Ariel Sharon estão todos sob a mira e a fúria do “devir-terrorista” de Gil Vicente.

Evidentemente, como se trata de uma Mostra que goza, nos circuitos culturais do país, de notória visibilidade, a série de Gil Vicente, ao contrário da reação em outras localidades, não poderia deixar de levantar polêmicas. Logo, as vozes das boas consciências, a mais querida agência moral do indivíduo civilizado, como dizia Marcuse,  representadas pela OAB se ergueram contra os quadros do artista pernambucano. Acusaram-na de “apologia à violência e ao crime”, e a OAB sugeriu que as mesmas não fossem à público.

Quem quer esteja minimamente familiarizado com os stencil, tão comum nos muros e calçadas das grandes cidades, não há de se chocar e se incomodar com a mostra “Inimigos”. Porém, aos polidos advogados da Ordem, seguidores da estética da “admiração desinteressada” e do juízo do gosto – gosto de quem? cara pálida -, qualquer coisa mais ou menos subversiva, mais ou menos visceral, espicaça-lhes a pele e parece-lhes, aos seus olhos delicados, um atentado contra as regras da boa convivência.

O que os advogados não entendem é que os critérios de julgamento ou mesmo os critério de produção nas artes quase nada tem a ver com os bons sentimentos de respeito, piedade e dedicação ao próximo. E também que a arte não visa o convencimento – daí a impossibilidade da tal apologia. A política, a ciência e o direito são que visam tal intento. A arte propõe possibilidades de experiência, sensações, sentimentos que, por sua vez, podem ou não deflagrar crítica e novas formas de percepção e compreensão acerca de nosso mundo e de nossa situação.

Os advogados da OAB querem proteger as consciências indefesas dos pueris e tolos cidadãos, os quais, assim pensam os advogados, não gozam de discernimento suficiente e se deixam impressionar e se influenciar por qualquer coisa. Tratam-nos como crianças e idiotas, que necessitam ser tutelados por algum tipo de referência paterna que lhes inculquem o senso de discernimento entre o bem o mal, o certo e o errado, o lícito e o ílicito, o imoral e o moral. O Pai é a lei. Mais do que os quadros de Gil Vicente o que verdadeiramente violenta às consciência é essa vontade de tutela.

Gil Vicente quer o contrário; quer atacar às consciências, agitá-las, arrancá-las de sua letargia, jogar em suas caras a sua subserviência irrefletida. Quantos não queriam, por algum momento, estar ali de arma em riste apontada contra algum daqueles “líderes”? A arte pode fazer isso; dar consistência, relevo, cor e forma à desejos, sentimentos excêntricos e forças compulsivas que de outro modo ficariam soterrados em nosso inconsciente, sufucados pelo princípio de realidade. Ela recoloca em cena os desejos humanos em sua nudez mais crua, não para o artista mas para o público, a comunidade. Eis aí seu aspecto de ritual. O direito interdita. A arte sublima.

sábado, 3 de abril de 2010

Universal e particular: o que fazer com as burcas?



Passo agora para alguns breves comentários acerca do debate sobre a proibição ou não proibição da burca, tema da reportagem expressa no último post.

Quando os “outros” adentram em nossas fronteiras eles trazem inscritos em seus corpos e gestos as marcas de suas terras e sociedades. Carregam-na, mesmo a contragosto, para dentro de nosso mundo, e a exposição crua das diferenças que adentraram chacoalham nossas pressuposições. Um problema está claramente posto: o que fazer com essas diferenças? Tratá-las com reconhecimento na medida em que estão em consonância com nossos valores e normas e com repressão na medida em que afrontam/diferem destes últimos? Então é isto: devemos alçar nossa sociedade e desenho normativo como a medida de todas as coisas? Uma resposta etnocêntrica não está à altura do problema, pois repousa na própria normatividade das sociedades ocidentais modernas uma pretensão à universalidade e cosmopolitismo.

Uma atitude etnocêntrica é uma resposta particularista, portanto que contradiz a própria normatividade e identidade moderna. Então o problema passa a ser outro: como reconhecer/respeitar as especificidades dos de “fora”, dos “estrangeiros”, sem que isto implique na desagregação de nossas pressuposições normativas – laicidade, universalidade, isonomia, etc.? Ou, como preservar os princípios normativos abstratos modernos – cidadania, igualdade – sem que isto signifique subsumir ou negligenciar desigualdades/diferenças concretas? O que está em tensão é evidente: o conflito entre universal e particular, como conciliá-los?

Questões complicadas como pode perceber o leitor. Notadamente, como compreendeu Cadu, em seu comentário à reportagem referente ao debate sobre a burca, a Bélgica, e a também a França acompanhada por outros países da Europa ocidental, optou por uma política da universalidade, baseada na igualdade de todos os seres humanos em torno de certos princípios gerais e universalmente válidos, e que somente reconhece/tolera/permite determinadas diferenças e práticas culturais na medida em que estas estão em harmonia com aqueles princípios universalmente válidos e estendidos a todos.

No entanto, mais do que constatar a tensão entre universal e particular, é preciso perguntar o que anima e quem reivindica o manejamento de princípios universalistas como elementos de justificação à proibição do uso da burca em espaços públicos. Republicanismo ou islamofobia? Defesa de ideais democráticos e emancipadores ou medida populista para abocanhar votos nos extensos setores xenófobos e direitistas dos países europeus? A meu ver, a fronteira entre um e outro não é tão clara e definida. Além do mais, na Europa, o tema das burcas ou hijabs goza de uma atratividade político-midiática bastante forte.

Essa atitude do governo belga em insistir na proibição do uso em espaços públicos da burca denota a seguinte postura em relação às diferenças: “somente os aceitamos se vocês se tornarem, no espaço público – no espaço da circulação e exposição das diferenças e também o espaço das decisões – os mais próximos e iguais possíveis de nós”. Ou seja, a assimilação/reconhecimento somente se dá em função da aceitação/submissão pelos “estrangeiros” dos valores universais reguladores, que são, na verdade, valores europeus. Fora da norma e das fronteiras européias, os “estrangeiros”, as “mulheres de burca” continuam sendo “outros”. Estes só se tornam “iguais”, humanos em igualdade de direitos e dignidade, no espaço sancionado pela norma européia, ou melhor, mediante sua submissão a esta.

Um outro ponto recorrente na discussão sobre as burcas é a necessidade da emancipação das mulheres mulçumanas. De fato, a meu ver, a burca é um instrumento de sujeição, de controle do corpo feminino, ainda que brinde identidade, reconhecimento, pertencimento e beleza para algumas. Há aquelas, mulçumanas, que vêem na burca simultaneamente um prêmio, uma prova de obediência e uma forma de proteção de sua honra e modéstia, blindada do desejo masculino. Mas há também mulheres mulçumanas que encaram sua obrigatoriedade como imposição masculina, restrição, controle e disciplinamento.

Entretanto, se de fato o que interessa e move esse debate é a emancipação das mulheres, por que não se ver a mesma energia e dedicação política por parte dos interessados para equalização salarial entre homens e mulheres, ou sobre os efeitos nocivos das políticas de família estigmatizantes das mulheres/mães pobres, ou o abuso da publicidade na representação do corpo feminino que o reduz a um mero objeto? Quem é mais emancipada uma mulher mulçumana que trabalha, estuda e sustenta uma família ou as francesas “bon chic” a bater perna pela Champs-Élysées?

Sob o manto republicano da universalidade e emancipação existe muito de unilateralismo e dominação velados. Negar o acesso ao espaço público por razões de vestimentas ou religiosas me parece mais anti-republicano do que o uso das burcas.

A meu ver, políticas de controle e proibição, tais quais as expressas na reportagem, não enfrentam a principal questão, pois não há aprendizado, diálogo, enriquecimento mútuo, trocas e produção de reciprocidades de sentidos culturais através da confrontação de idéias, percepções e hábitos distintos. O conflito intercultural, o lidar com a diferença que perturba e chacoalha nossas pressuposições – e as dos outros também - e que as fazem se mostrar como aquilo que de fato são, isto é, como pontos de vistas particulares e provisórios, é deixado inteiramente de lado, suprimido em nome da segurança e reprodução de um modelo integrador e assimilacionista ilusoriamente universalista.

A questão a se enfrentar é: uma vez que vivemos num mundo globalizado onde o contato com as diferenças é inevitável, como produzir sentidos emancipadores mútuos através do conflito/diálogo intercultural mediante o qual as identidades, ou melhor, as identificações, valores e práticas culturais possam ser tratadas como realidades abertas, construídas e re-construídas historicamente, segundo a experiência sócio-política dos sujeitos? Um diálogo/conflito intercultural que não dispense um horizonte de pretensões universalistas de direitos – à dignidade, à igualdade e à liberdade, por exemplo -, mas que o inscreva no interior do movimento das discussões em torno das práticas e identificações culturais.

Que se interpele as mulheres mulçumanas com as seguintes questões: “por que somente às mulheres é colocado a obrigatoriedade de cobrir quase por completo o corpo?” “Quem decidiu e instituiu essa prática? Homens e mulheres em discussão? Ou somente os homens?” “Qual é o poder de decisão e interferência das mulheres nos assuntos religiosos?”

A cultura não é uma negociação de sentidos, como pensa o antropólogo americano Clifford Geertz, operada a partir de um consenso sobre as interpretações, mas sim, como pensam Nietzsche, Foucault e Bourdieu, o produto tenso e mais ou menos duradouro de um processo de imposição de sentidos arbitrários e apropriação de significados obtidos, impostos e conservados graças à diferença de força e relações de hegemonia e dominação específicas.

A grande dificuldade desse possível diálogo intercultural reside na mediação institucional, como formatá-lo institucionalmente. De todo modo, creio ser mais proveitoso políticas que ensejem uma crítica de mão dupla na tentativa de proporcionar um maior distanciamento e estranhamento aos indivíduos em relação à sua própria cultura e sociedade, discutindo as relações de poder e de hegemonia constituintes das identificações e práticas em questão, inclusive dessas políticas e do próprio diálogo/conflito intercultural – a desigualdade de capitais culturais e econômicos, a linguagem, gênero, etc.. A meta dessas políticas deve ser sempre a produção de efeitos de hibridização e complexificação recíprocos e potencialmente “mais democráticos” para os envolvidos.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Vitória do ressentimento.




Uma pequena insatisfação circula pelos círculos semi-ilustrados do país. Apesar do desprezo que muitos dizem sentir pelo programa Big Brother Brasil, a vitória do participante Dourado foi recebida com algum pesar e revolta. Os mais exaltados exclamam desconsolados: “Foi uma vitória do preconceito, do machismo”; “Eis a demonstração nua e crua da ignorância do brasileiro e de sua aversão pela diversidade”. Certamente o leitor em algum momento deve ter ouvido frases desse tipo. O mais engraçado é ouvi-las da boca daqueles que até então ostentavam um desdém aristocrático, e que agora, a julgar por sua revolta e insatisfação, parecem atribuir ao programa uma relevância surpreendente.

Cá do meu canto, não vejo derrota de nada, nem prova de aversão alguma. Vejo apenas ressentimento. A meu ver, a vitória de Dourado, sua popularidade instantânea, se deve ao ressentimento de uma parcela dos heterossexuais em relação à visibilidade política e publicitária que os gays conquistaram nos últimos anos. Uma reação. O patético é constatar que essa reação se encarnou no clichê da masculinidade, isto é, o que esta tem de mais estúpido, pobre e rude: a virilidade tosca e deseducada dos arrotos e das cusparadas, o ar hostil e ameaçador dos murros e pontapés.

O clichê, isto é, a imagem ou a representação simplificada e homogeneizante de algo, serve para fazer com que percebamos somente aquilo que nos interessa. Ou seja, aquilo que se alinha com nossas expectativas e exigências psicológicas, segundo os interesses – reativos - em questão. Não importa a ignorância, a asneira, os preconceitos, a inteligência rala; no clichê somente se ver o que une, o que congrega, o comum, portanto, os elementos homogeneizantes, e não o que complexifica e problematiza.

O êxito do brother Dourado é, na verdade, a reação ressentida de segmentos que, de uns anos pra cá, viram-se confrontados com uma diferença que deixou o armário e o silêncio para a algazarra das ruas, dos filmes e programas de televisão. Uma diferença que foi paulatinamente recoberta com direitos e mecanismos de defesa e proteção pelo Estado, assegurando seu direito à visibilidade e dignidade, e que, também, ganhou um lugar de reconhecimento, cada vez mais expressivo, no mercado e no âmbito da cultura pop e do entretenimento.


Alyson Thiago F. Freire

sexta-feira, 5 de março de 2010

Avatar Pornô?



Desde seu nascedouro, em algum lugar entre o século XVIII e XIX, a pornografia esteve voluptuosamente conectada à tecnologia. A etimologia da palavra não deixa dúvidas. Em seu secular percurso histórico, dos antros das obscenidades e da clandestinidade do universo dos libertinos, hereges e de toda espécie de ser e ocupação de reputação duvidosa até a sua transformação fílmica em serviço de entretenimento pela cultura de massa do século XX, a pornografia acompanhou as inovações tecnológicas vis-à-vis, despertando tantas volúpias quanto indignações. Primeiro com os panfletos e livretos de contos e caricaturas impressas, depois à fotografia, o cinema e, por último, a internet.

O mais novo desdobramento desse processo, na esteira do sucesso do último filme do diretor James Cameron, Avatar, foi anunciado pela Hustler, conhecida produtora no ramo da fornicação mercantilizada. A promessa da Hustler é por em cena uma paródia pornô de Avatar, cujo título é This Ain’t Avatar XXX. É improvável que a Hustler disponha do aparato tecnológico utilizado e da habilidade técnica e cinematográfica requeridas, responsáveis pelo marco no cinema que o filme do James Cameron representa. Entretanto, suponhamos, por um instante, e por sincero interesse sociológico, que o diretor de Avatar cedesse os equipamentos de simulação 3D e auxiliasse a produção da versão pornô do povo Na’vi. Tal feito além de abrir novos horizontes de prazer, satisfação e de comportamentos sexuais, seria, seguramente, algo proveitoso ao pensamento. Ou como dizia o outrora etnólogo Levi-Strauss: “bom pra pensar”.

Pelo menos no cinema, a encenação de um sexo limpo, livre dos fluídos, dos odores e do roçar dos corpos não é uma novidade. Por exemplo, no filme O Demolidor, há uma cena na qual Sylvester Stallone e Sandra Bullock oferecem-nos a insípida e cômica idéia de um possível coito futurista mediado por capacetes de interface neural configurados para produzir, sem nenhuma pegação, as reações químicas responsáveis pela sensação de prazer através da simulação e projeção de uma relação sexual realizada por hologramas do casal. Veja aqui a cena mencionada.

Por enquanto, não convém adentrar em julgamentos e avaliações acerca da riqueza e/ou pobreza de relações sexuais mediada por avatares, corpos-softwares, hologramas e corpos sintéticos, etc. Assim evitamos cair num discurso alarmista e apressado, segundo o qual as novas tecnologias representam sempre uma ameaça à natureza, o que, no campo da sexualidade, corresponderia a uma ameaça ao corpo e ao desejo.

Na verdade, penso que, longe de subsumir o desejo ou o corpo, a tecnologia intensifica-nos mediante sua articulação em novas composições técnicas, relações e forças que mobilizam e produzem novos sentimentos, sensibilidades, possibilidades, etc., – pensemos nos artifícios da cirurgia plástica, do PhotoShop, nas próteses, nas inúmeras substâncias e suplementos químicos voltadas para o desempenho do corpo ou para o restabelecimento de uma situação de equilíbrio.

A confusão ocorre quando em vez de compreendermos o corpo como um processo ativo, aberto e maleável, segundo as condições e possibilidades históricas e culturais, o entendemos somente como uma materialidade físico-orgânica estanque e sagrada. As tecnologias de simulação longe de representar a extinção ou crise do corpo, elas significam a encarnação do corpo em novas possibilidades técnicas. Se for verdadeiro, como afirma Heidegger, que não existimos com a técnica, mas na técnica, então em vez da obsolescência e apagamento do corpo, como sugere alguns, temos em marcha, na verdade, um outro processo de corporificação, uma vez que, como afirma Merleau-Ponty: “o corpo é um conjunto de possibilidades continuamente realizáveis”.

Os Avatares, a introdução de tecnologias de simulação digital nas relações sexuais, realizariam todas as formas sonhadas de mutação, que, por suas características, livrar-nos-ia do peso do corpo, das marcas essencializadas da raça e do sexo; nem a idade, nem a saúde seriam mais obstáculos. Em vez da morte do corpo, creio, teríamos o exorcismo do corpo pela técnica; liberação do orgânico, da fraqueza dos órgãos, enfim, o exorcismo de tudo aquilo que convencionamos associar ao humano: o corpo, a finitude, a vulnerabilidade, as paixões, a morte, a vida entendida no seu sentido de vulnerabilidade e imperfeição. Avatar é uma nova possibilidade de corporificação em direção à emancipação do humano de seus últimos fundamentos teológicos e humanistas.

Retornando ao tema de origem do texto, creio a virtualização do sexo pela tecnologia Avatar seria muito proveitosa para a escola, por exemplo. Imaginemos a revolução que se abateria sobre as aporrinhadoras e pacatas aulas de educação sexual, que mais disciplinam, amedrontam e entediam, com suas ameaças em forma de cartazes, cartilhas e folders insossos do que educa para uma relação atraente, autônoma e amorosa com a sexualidade.

No horizonte próximo, uma nova configuração do corporal e do sexual já acenam. Em alguns anos à frente, talvez, as veias incorruptas pelas quais o prazer corre desembocará em outras fontes. O desejo, o prazer, o sexo passará por novas partes. Sua fruição delirante mediada por cabos, softwares, plugs; impulsionada por ondas, bytes, posições e técnicas sexuais para download e upgrades, orgasmos garantidos por gadgets. A digitalização do sexual seria como que uma espécie de transfusão e descorporificação do sexual, mas isto não quer dizer dessimbolização deste.

O agenciamento da sexualidade e do erotismo com as práticas relacionadas à tecnologia Avatar desestabilizaria por inteiro a organização genital da sexualidade, esta que é a matriz moderna demarcadora da polícia do sexo normal, natural, e, por conseqüência, do que é considerado desviante e perverso.

Vivemos em um mundo, como sentenciou Baudrillard, marcado pelo afundamento progressivo da realidade no hiperrealismo. Um mundo governado por modelos de reprodução minuciosa e alucinante do real – fotografia, publicidade, vídeos, games 3D, cibernética etc -, isto é, um mundo constituído por simulacros e simulação no qual a ênfase repousa muito mais na representação da coisa do que na própria coisa em si. A ascensão do simulacro é exatamente isto: o arrebatamento da coisa em si, das consciências e do real pela representação. Esta, a imagem de um objeto, é mais importante, mais desejada do que o real, o concreto, o objeto.

Portanto nem mais a sexualidade e o sexo escapam ao avanço dos simulacros. Eles estão embutidos nos próprios corpos – transexuais – por vias técnicas que manipulam sua materialidade ou por meio da manipulação de sua representação – cirurgias estéticas e corretivas no primeiro e vídeos, hologramas, corpos sintéticos, Avatares, no segundo. Os corpos podem ser, agora, nosso joguete de cordas, nossa alegoria.


Alyson Thiago F. Freire

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Tiger Woods ou a intimidade como espetáculo




Num tempo banhado pela obsessão pela visibilidade, pela exposição e mercantilização da intimidade, a antiga máxima burguesa, segunda a qual certas coisas não se dizem, não se mostram e não se fazem em público, já pertence a um passado cuja distância e o desgaste no tempo já o vão tingindo com cores idílicas. A cobertura sensacionalista conferida aos recentes “escândalos sexuais”, envolvendo o golfista Tiger Woods é mais uma pá de cal nesse passado, que, aos excitados olhos contemporâneos, já não goza de nenhuma pregnância. A metáfora da liquidez, que desde Marx é utilizada para descrever a sociedade de mercado, e que atualmente é elevada a categoria central na sociologia de Bauman, é mais do que nunca a força irresistível, a torrente que move e remove de cima a baixo nossa época.

Se não bastasse a proliferação das manchetes, reportagens, fofocas, explorando as aventuras extraconjugais do antes bom moço Tiger Woods, na última sexta-feira, 19/10, Tiger Woods concedeu uma entrevista coletiva com ares de expiação pública, cujo intuito era, perante milhões de pessoas, confessar e se desculpar pelo seu comportamento promiscuo.

O intrigante a se pensar, nesse caso, consiste em observar como a trivialidade, revelada como imagens capturadas da vida íntima de famosos ou anônimos, e transmitidas pelos mass media, parece constituir, cada vez mais, o elemento par excellence que nos liga ao mundo. Há nisso algo de muito grave. A condição de trivialidade disfarça uma relação tenebrosa com o outro, com as nossas ações e posicionamentos em relação ao outro. Ela, a banalidade, faz com que a violência e a crueldade presentes numa situação contingente, como a entrevista coletiva de Tiger Woods, sejam enevoadas, pouco perceptíveis. Eis aí sua função, a aparência de banalidade presta precisamente para a ocultação da violência e da crueldade, e, nesse caso específico, subsumindo-as para o consumo como “mais um escândalo de uma celebridade”, como uma notícia, um enredo, isto é, como banalidade.

O banal é aquilo que se dá a aparecer como tal, ou seja, aquilo que, por sua repetição e trivialidade, é desprovido de qualquer profundidade e singularidade. A banalidade é marcada por relações automáticas, irrefletidas; destituídas de pertinência crítica, moral, de julgamento, portanto, marcadas pelo supérfluo. O que com freqüência se esquece é que as aparências na medida em que revelam um lado, ocultam outro. A banalidade consiste, de fato, nessa operação de aparição/ocultamento.

Mas que violência é esta que a banalidade oculta no caso Tiger Woods? Ela oculta um jogo vinculante entre verdade e confissão. Um jogo que vincula o sujeito à obrigação de confessar a verdade de seus atos sexuais enquanto conteúdos privilegiados de acesso à identidade concernente ao indivíduo. Temos claramente no ritual público a que foi submetido Tiger Woods a presença de uma velha tecnologia de poder, a prática confessional, a qual Foucault descreveu e examinou, com brilhante originalidade, em sua obra.

O interessante dessa tecnologia de poder, como explica-nos Foucault, é justamente sua relação com os segredos em torno do desejo sexual. Desenvolve-se uma espécie de jogo que converte a sexualidade como a “chave que permite analisar e constituir individualidade” e os segredos – as enunciações – numa matéria inteligível por meio da qual se pode extrair e revelar a verdade da identidade do sujeito confidente. De início, nos séculos XV, XVI e XVII, a confissão estava restritas aos lugares institucionais tais como as salas de aula, os seminários, tribunais da inquisição e confessionários. É a partir do final do século XVIII que a discursividade do desejo expande-se a outros âmbitos do tecido social; nos espaços e nas práticas relativas ao judiciário, à medicina, à pedagogia, às relações familiares e amorosas, enfim, expande-se pelo cotidiano.

A confissão como tecnologia de poder é parte fundamental num processo de colonização da vida interior e da intimidade, que hoje tem nos meios de comunicação um lugar privilegiado do qual retira uma eficácia e extensão sem precedentes. Portanto, a entrevista/confissão do famoso golfista, não me parece, seguramente, que seja fruto de uma exigência moral do mercado ou da opinião pública para a readmissão e perdão daqueles que se portaram inadequadamente. E também, por mais que ela tem sido motivada pela pressão dos patrocinadores e agentes do atleta na tentativa de atenuar os efeitos sobre as arrecadações e dividendos, isto não explica o essencial.

No mercado das aparências em que se transformou, em parte, o espaço público contemporâneo, o espetáculo da intimidade, sua banalização, leva-nos a não ponderar sobre o que estamos fazendo com os outros, ou seja, a incapacidade de pensar em relação ao ponto de vista do outro ou de sua situação. Aceitamos participar do sofrimento e da humilhação do outro, fechando-nos na banalidade da situação sem compreender o que, de fato, estamos fazendo. Tal conduta pode ser estendida a uma série de práticas sociais, como as músicas que depreciam o feminino, por exemplo.

A desculpa da imprensa e dos empresários é que Tiger Woods é um espelho para os jovens, um “exemplo para juventude”, por isto a retratação pública era um dever moral do golfista perante seus fãs e à opinião pública. Ora, mas é o mercado com as devidas ferramentas de exposição multimídia, e com fins comerciais, que o transformou em “exemplo para juventude”. É o mercado, e suas políticas de marketing, que faz com que certas pessoas sejam exibidas como marcas, ou melhor, vendidas no mercado das aparências como uma figura de virtudes, um exemplo a ser seguido, um modelo a ser imitado, signo de sucesso e realização.

A colonização e comoditização da vida íntima convertem-se, cada vez mais, em uma espantosa banalidade da vida diária, que leva-nos à inconsciência da mediocridade e da insensibilidade características da época em que vivemos. Exemplos do gozo irrefletido com o sofrimento e com humilhação alheia não faltam. Os próprios nomes das pessoas – Eloá, Geisy e Tiger Woods – são precedidos do termo policialesco “caso, reforçando ainda mais a síntese dramática, ficcional e estetizada de nossa realidade. O banal tornou-se a ligadura de nossa relação com o mundo e com o outro. Mas sua espetacularização não é mera reprodução de imagens. Lembremos Guy Debord: “O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada pelas imagens”.


Alyson Thiago F. Freire