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terça-feira, 20 de julho de 2010

O professor hiperativo



Por Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor e professor da UFRRJ.



Minha amiga, professora Célia Tranto, carrega um volume de trabalho que, segundo diz, a tira da possibilidade de ler o que deseja. Ela não é exceção. Em geral, o professor universitário, na universidade pública, apesar de ter suas horas de aula fixadas de modo razoável e seu tempo de pesquisa satisfatoriamente cedido, diz que está assoberbado de trabalho. Acredito que os professores universitários realmente estão sob pressão, mas temo que estejam enganados ao acreditarem que essa realidade é imutável ou que se trata de uma realidade alheia ao que podem decidir.

A maior parte dos professores, para explicar esse “seqüestro” levado adiante pelo trabalho, repete um discurso que é arrumado demais, que os satisfaz, mas que vejo como uma justificativa não tão boa quanto lhes parece. Falam sempre em “globalização”, “educação como mercadoria”, “produtividade” e, alguns, enchem a boca ao usar o termo “neoliberalismo” – essa palavra que tanto a esquerda quanto a direita adora, nem sempre sabendo do que se trata. Não sei bem se essas palavras que viraram corriqueiras no mexe-mexe da bochecha de professores e que, agora, já aparecem nas provas de alunos, são realmente levadas a sério pelos que as pronunciam. Muitas vezes, chego a pensar que elas já estão sendo ditas mecanicamente. Pois, se cada professor que se diz assoberbado de atividades refletisse sobre o que faz na universidade, veria que as demandas que assume não são tão obrigatórias quanto ele mesmo afirma que são. Uma boa parte do que fazem é assumida por deliberação livre e, não raro – e isso é que é o problema – em detrimento do cuidado que poderiam ter com os alunos da graduação.

É claro que um professor que está em formação, fazendo o seu mestrado ou doutorado, ou mesmo um jovem doutor, tende a se envolver em muitas atividades. Mas, numa boa parte das universidades públicas, há um contingente de professores já com doutorado, ou mesmo professores livres-docentes e titulares, ou seja, veteranos que, enfim, poderiam estar em maior convivência com os estudantes do que realmente estão. Não digo em sala de aula ou bancas. Digo no convívio mesmo, na troca efetiva de experiências. No entanto, assumem atividades administrativas variadas ou então se envolvem em projetos nem sempre tão úteis a eles mesmos ou à cultura quanto imaginam ou tentam justificar para si mesmos. A “cultura da agitação” se sobrepõe à “cultura da produtividade”, embora a responsabilidade pela “falta de tempo” seja jogada nas costas da segunda, é claro.

Ninguém tem tempo. Todos estão muito ocupados. Há congressos, viagens internacionais e nacionais, aulas de pós-graduação sabe-se lá onde e, enfim, todo tipo de reunião e cargos e comissões. Quanto mais coisa aparece, mais coisas assumem. Quando não aparece, inventam. Dizem que “não houve como dizer não”. Será que eles realmente acreditam que não podiam dizer não ou eles não responderam com a negativa com medo de serem esquecidos quando a oferta for compensadora? Ou eles simplesmente não disseram não porque o que lhes foi oferecido, apesar de não ser bom, lhes dá status que, pensam eles, irá abrir porta para mais status?

Tudo isso tem um preço. Quem paga mais são os alunos da graduação. Esses alunos são vistos como incômodo e, para que não perturbem os seus professores por meio de possíveis “pensamentos livres”, são abarrotados de trabalhos “para entregar”. Isso coloca tais garotos impedidos da vivência universitária e até mesmo sem o tempo necessário para o estudo. Ao final de quatro anos, os professores estão esgotados, os alunos mal formados. A dita falta de tempo fez tudo correr a favor da “pedagogia bancária”, obedecida até mesmo pelos freireanos de carteirinha ou, talvez, muito mais por eles!

Quando colocados diante do prejuízo causado por essa situação toda, dizem os professores que caso não cumpram tudo “segundo esse figurino” não conseguirão a “promoção funcional”, tão necessária para o sustento de seus rebentos – mesmos quando estes já são homens feitos e mulheres bem colocadas profissionalmente. Será?

Não estou dizendo que os professores se engajam em uma vida marionetada exclusivamente por culpa própria. Concedo à política educacional do Brasil atual, para o ensino superior, a responsabilidade que ela tem. Sei, por exemplo, que Fernando Haddad está errado ao dar bolsa para professores para que eles cuidem da “educação continuada” para professores da rede escolar de ensino básico – falei isso pessoalmente a ele. O correto seria ampliar as licenciaturas, fazer o ensino público superior de qualidade crescer (e não o PROUNI) e, então formar bons professores. Para manter esses professores, então bem formados, no ensino básico, o que é necessário é um aumento salarial digno. Todo governo que entra não pensa no médio prazo, então joga a universidade na tarefa de reformar os já formados. É claro que uma política assim – que é uma constante em nosso país – tira o tempo do professor universitário. Há uma série de outras coisas desse tipo que tira o tempo do professor universitário. Mas, caso sejamos sinceros conosco mesmo, isso não é o determinante de nossa “falta de tempo”.

Nossa falta de tempo ainda é resultado, ao menos no ensino superior público, de escolhas e decisões que nós tomamos. São antes decisões nossas que coisas que nos caem na cabeça. Nós damos valor a cargos. Damos valor a títulos e elogios que nos parecem canalizados a tais cargos. Procuramos nos fazer notar por quem manda ou parece que manda e, ao fim, acabamos apenas deixando que o “seqüestro” ocorra. Sentimos que se não estamos em um programa de pós-graduação, ficando apenas na graduação, não temos prestígio. Chegamos a justificar nossa entrada em programas de pós através de frases um tanto infantis como “se não estou na pós não consigo financiamento para o meu projeto”. Ora, mas qual é o seu projeto? Que adianta projeto se o aluno da graduação está tendo uma aula aligeirada e se você não pode estar presente no meio dos alunos, para criar a cultura da troca de experiência?

Universidade sem vivência universitária não é universidade, é mais um cursinho a distância. Ora, mas já não está tudo se transformando em curso a distância? Essa é a idéia geral: tirar as pessoas da condição de poderem viver e trocar experiências. O seqüestro promovido pela falta de tempo faz parte de um seqüestro maior, que é o roubo da alma por meio do isolamento do corpo, um destino posto já há algum tempo pelo projeto da modernidade. O professor universitário, todos os dias, cede a isso e, irresponsavelmente, diz que “é assim mesmo”. É a “globalização”, a “mercadorização” e… (ah, minha sina!) o “neoliberalismo”. Como o professor universitário gosta desse discurso pseudo-político que lhe tira a responsabilidade!

Cedemos à “cultura da pressa” e, logo em seguida, culpamos a “cultura da produtividade”. Não somos tão produtivos assim – isso pode bem ser notado se olharmos o que nossos alunos de graduação, ao final de quatro anos, sabem fazer.

Ouve um tempo que havia uma doença que era a da “criança hiperativa”, com dificuldade de aprendizado. Essa doença raramente ataca, agora, as crianças.


quarta-feira, 12 de maio de 2010

O Fetiche da Quantidade

Por Renato Mezan


A cada tanto tempo, volta-se a discutir como deve ser avaliado o trabalho dos professores. O grande número de pessoas envolvidas nos diversos níveis de ensino, assim como o de artigos e livros que materializam resultados de pesquisa, tem determinado uma preferência por medidas quantitativas.

Se estas podem trazer informações úteis como dado parcial para comparar resultados de escolas em vestibulares ou o desempenho médio de alunos em determinada matéria, sua aplicação como único critério de "produtividade" na pós-graduação vem gerando -a meu ver, pelo menos- distorções bastante sérias.

Não é meu intuito recusar, em princípio, a avaliação externa, que considero útil e necessária. Gostaria apenas de lembrar que a criação de conhecimento não pode ser medida somente pelo número de trabalhos escritos pelos pesquisadores, como é a tendência atual no Brasil. Tampouco me parece correta a fetichização da forma "artigo em revista" em detrimento de textos de maior fôlego, para cuja elaboração, às vezes, são necessários anos de trabalho paciente.

A mesma concepção tem conduzido ao encurtamento dos prazos para a defesa de dissertações e teses na área de humanas, com o que se torna difícil que exibam a qualidade de muitas das realizadas com mais vagar, que (também) por isso se tornaram referência nos campos respectivos.

O equívoco desse conjunto de posturas tornou-se, mais uma vez, sensível para mim ao ler dois livros que narram grandes aventuras do intelecto: "O Último Teorema de Fermat", de Simon Singh (ed. Record), e "O Homem Que Amava a China", de Simon Winchester (Companhia das Letras).

O leitor talvez objete que não se podem comparar as realizações de que tratam com o trabalho de pesquisadores iniciantes; lembro, porém, que os autores delas também começaram modestamente e que, se lhes tivessem sido impostas as condições que critico, provavelmente não teriam podido desenvolver as capacidades que lhes permitiram chegar até onde chegaram.

Everest da matemática

O teorema de Fermat desafiou os matemáticos por mais de três séculos, até ser demonstrado em 1994 pelo britânico Andrew Wiles. O livro de Singh narra a história do problema, cujo fascínio consiste em ser compreensível para qualquer ginasiano e, ao mesmo tempo, ter uma solução extremamente complexa. Em resumo, trata-se de uma variante do teorema de Pitágoras: "Em todo triângulo retângulo, a soma do quadrado dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa", ou, em linguagem matemática, a2²=b2²+c2².

Lendo sobre esta expressão na "Aritmética" de Diofante (século 3º), o francês Pierre de Fermat (1601-65) -cuja especialidade era a teoria dos números e que, junto com Pascal, determinou as leis da probabilidade- teve a curiosidade de saber se a relação valia para outras potências: x3³= y3³ + z3, x4 = y4 + z4 e assim por diante. Não conseguindo encontrar nenhum trio de números que satisfizesse as condições da equação, formulou o teorema que acabou levando seu nome -"Não existem soluções inteiras para ela, se o valor de n for maior que 2"- e anotou na página do livro: "Encontrei uma demonstração maravilhosa para esta proposição, mas esta margem é estreita demais para que eu a possa escrever aqui".

Após a morte de Fermat, seu filho publicou uma edição da obra grega com as observações do pai. Como o problema parecia simples, os matemáticos lançaram-se à tarefa de o resolver -e descobriram que era muitíssimo complicado.

Singh conta como inúmeros deles fracassaram ao longo dos 300 anos seguintes; os avanços foram lentíssimos, um conseguindo provar que o teorema era válido para a potência 3, outro (cem anos depois) para 5 etc. O enigma resistia a todas as tentativas de demonstração e acabou sendo conhecido como "o monte Everest da matemática". É quase certo que Fermat se equivocou ao pensar que dispunha da prova, que exige conceitos e técnicas muito mais complexos que os disponíveis na sua época.

Quem a descobriu foi Andrew Wiles, e a história de como o fez é um forte argumento a favor da posição que defendo. O professor de Princeton [universidade americana] precisou de sete anos de cálculos e teve de criar pontes entre ramos inteiramente diferentes da disciplina, numa epopeia intelectual que Singh descreve com grande habilidade e clareza. Não é o caso de descrever aqui os passos que o levaram à vitória; quero ressaltar somente que, não tendo de apresentar projetos nem relatórios, publicando pouquíssimo durante sete anos e se retirando do "circuito interminável de reuniões científicas", Wiles pôde concentrar-se com exclusividade no que estava fazendo.Por exemplo, passou um ano inteiro revisando tudo o que já se tentara desde o século 18 e outro tanto para dominar certas ferramentas matemáticas com as quais tinha pouca familiaridade, mas indispensáveis para a estratégia que decidiu seguir. Questionado por Singh sobre seu método de trabalho, Wiles respondeu: "É necessário ter concentração total. Depois, você para. Então parece ocorrer uma espécie de relaxamento, durante o qual, aparentemente, o inconsciente assume o controle. É aí que surgem as ideias novas".

Este processo é bem conhecido e costumo recomendá-lo a meus orientandos: absorver o máximo de informações e deixá-las "flutuar" até que apareça algum padrão, ou uma ligação entre coisas que aparentemente nada têm a ver uma com a outra. Uma variante da livre associação, em suma.

Ora, se está correndo contra o relógio, como o estudante pode se permitir isso? A chance de ter o "estalo de Vieira" é reduzida; o mais provável é que se conforme com as ideias já estabelecidas, o que obviamente diminui o potencial de inovação do seu trabalho.

Tarefa hercúlea

Outro exemplo de que o tempo de gestação de uma obra precisa ser respeitado é o de Joseph Needham (1900-95), cuja vida extraordinária ficamos conhecendo em "O Homem Que Amava a China".

Bioquímico de formação, apaixonou-se por uma estudante chinesa que fora a Cambridge [no Reino Unido] para se aperfeiçoar; ela lhe ensinou a língua e, à medida que se aprofundava no estudo da cultura chinesa, Needham foi se tomando de admiração pelas suas realizações científicas e tecnológicas.

Em 1943, o Ministério do Exterior britânico o enviou como diplomata à China, então parcialmente ocupada pelos japoneses. Sua missão era ajudar os acadêmicos a manter o ânimo e a prosseguir em suas pesquisas.Para saber do que precisavam, viajou muito pelo país e entrou em contato com inúmeros cientistas; em seguida, mandava-lhes publicações científicas, reagentes, instrumentos e o que mais pudesse obter.

Nesse périplo, Needham se deu conta de que -longe de terem se mantido à margem do desenvolvimento da civilização, como então se acreditava no Ocidente- os chineses tinham descoberto e inventado muito antes dos europeus uma enorme quantidade de coisas, tanto em áreas teóricas quanto no que se refere à vida prática (uma lista parcial cobre 12 páginas do livro de Winchester).

Formulou então o que se tornou conhecido como "a pergunta de Needham": se aquele povo tinha demonstrado tamanha criatividade, por que não foi entre eles, e sim na Europa, que a ciência moderna se desenvolveu?A resposta envolvia provar que existiam condições para que isso pudesse ter acontecido, e depois elaborar hipóteses sobre por que não ocorreu. Daí a ideia de escrever um livro que mostrasse toda a inventividade dos chineses, tendo como base os textos recolhidos em suas viagens e as práticas que pudera observar.

Embora o projeto fosse ambicioso, a Cambridge University Press o aceitou, considerando que, uma vez realizado, abrilhantaria ainda mais a reputação da universidade."Science and Civilization in China" [Ciência e Civilização na China] teria sete volumes, e Needham acreditava que poderia escrevê-lo "num prazo relativamente curto para uma obra acadêmica: dez anos".

Na verdade, tomou quatro vezes mais tempo, e, quando o autor morreu, em 1995, já contava 15 mil páginas. Empreendimento hercúleo, como se vê, que transformou radicalmente a percepção ocidental quanto ao papel da China na história da civilização.

O volume de trabalho envolvido era imenso: de saída, ler e classificar milhares de documentos sobre os mais variados assuntos; em seguida, organizar tudo de modo claro e persuasivo, e por fim apresentar algumas respostas à "pergunta de Needham". Várias pessoas o auxiliaram no percurso (em particular, sua amante chinesa), mas a concepção de base, e boa parte do texto final, se devem exclusivamente a ele. MonumentoNeedham não publicou uma linha de bioquímica durante os últimos 30 anos de sua carreira.Tampouco tinha formação acadêmica em história das ideias -mas isso não o impediu de, com talento e disciplina, redigir uma das obras mais importantes do século 20.

Se tivesse sido atrapalhado por exigências burocráticas, se tivesse de orientar pós-graduandos, se a editora o pressionasse com prazos ou não o deixasse trabalhar em seu ritmo (o primeiro volume levou seis anos para ficar pronto), teria talvez escrito mais um livro interessante, mas não o monumento que nos legou.

O que estes exemplos nos ensinam é que um trabalho intelectual de grande alcance só pode ser feito em condições adequadas -e uma delas é a confiança dos que decidem (e manejam os cordões da bolsa) em quem se propõe a realizá-lo.Tal confiança envolve não suspeitar que tempo longo signifique preguiça, admitir que pensar também é trabalho, que a verificação de uma ideia-chave ou de uma referência central pode levar meses -e que nada disso tem importância frente ao resultado final.

Em tempo: um dos motivos encontrados por Needham para o estancamento da criatividade chinesa a partir de 1500 foi justamente a aversão de uma estrutura burocrática acomodada na certeza de sua própria sapiência a tudo que discrepasse dos padrões impostos.

Enquanto isso, na Europa (e depois na América do Norte) a inovação era valorizada, e o talento individual, recompensado. Nas palavras de um sinólogo citado no fim do livro, o resultado da atitude dos mandarins foi que "o incentivo se atrofiou, e a mediocridade tornou-se a norma". Seria uma pena que, em nome da produtividade medida em termos somente quantitativos, caíssemos no mesmo erro.
 
 
Artigo publicado na Folha de São Paulo, dia 09 de maio, último domingo.

Sobre o autor: Renato Mezan é psicanalista e professor titular na Pontifícia Universidade Católica de SP e autor de "Freud Pensador da Cultura"