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quarta-feira, 23 de junho de 2010

A Copa do Mundo e os etnocentrismos



Já que inevitavelmente o assunto é Copa do Mundo, vamos, então, falar um pouco dela, ou melhor, um pouco sobre os estereótipos um tanto quanto etnocêntricos que, vez por outra, escapam dos lábios de alguns dos comentaristas esportivos que cobrem os jogos. Quem assistiu a algum jogo de alguma seleção africana deparou-se, certamente, com “análises” que denunciavam uma certa displicência tática dos africanos. Estes, a despeito de sua habilidade e força física habitual, são tidos como jogadores, em seu conjunto, que pecam por jogarem um futebol inocente, demasiado voltado a atacar e despreocupado com os aspectos mais racionalizados – táticos – do jogo. Tal qual os preconceitos e estereótipos pelos quais as populações africanas foram, por séculos, representadas, suas seleções são também definidas como seleções exóticas, formada por jogadores não-civilizados, isto é, não domesticados pela tática, inocentes ainda preso na “infância do futebol”; um futebol alegremente irresponsável, pueril, que desperta tanto nos espectadores como nos comentaristas ocidentais um sentimento de simpatia graças a sua originalidade ainda não corrompida pelo futebol moderno.

Nesse tipo de comentário delineiam-se as velhas oposições pelas quais negros – mas também mulheres e os índios – foram sistematicamente inferiorizados pelo pensamento ocidental; em lugar das disposições racionais, da razão e da mente, disposições ligadas ao corpo, em vez do cálculo a inocência, a espontaneidade. Dessa forma, dizem os especialistas em futebol, as seleções africanas não logram êxitos maiores porque não conseguem controlar racionalmente, isto é, taticamente, suas inclinações “naturais” para o ataque, por isso quando enfrentam seleções maduras, com frieza tática - o corolário futebolístico para autocontrole –, em Copas do Mundo, elas sucumbem apesar da habilidade e força de seus jogadores.

As seleções asiáticas, por sua vez, são também compreendidas em termos dos estereótipos pelos quais mormente percebemos seus habitantes. A ênfase aqui não é tanto o corpo e a inocência infantilizadora, como no caso das seleções africanas, mas as metáforas ligadas a sua organização administrativa - disciplina, obediência, hierarquia - e os atributos associados a sua economia e produtividade – velocidade, dinamismo, competitividade, inovação.

Sobre a Coréia do Norte, por exemplo, recaí os adjetivos mais voltados ao seu regime político; “jogadores esforçados, de disciplina férrea, que respeitam o árbitro e suas marcações, padrão militar de jogo, a seleção mais fechada etc.”. Os jornalistas esportivos faziam questão de ressaltar, com espanto e ironia, o fato dos atletas norte-coreanos treinarem num ginásio público enquanto as outras seleções desfrutam de ginásios privados em hotéis de luxo numa alusão depreciativa à penúria socialista. Uma seleção stalinista, decerto, pensam os jornalistas.

Japão e Coréia do Sul, além das figurações exaustivas a propósito da velocidade e vigor de seus jogadores, ressalta-se, em rigor, a humildade de seus atletas, despretensiosos em contraste com a ostentação e o gosto pelo excesso das estrelas do futebol mundial. Os propósitos de seus atletas são encarados da mesma forma que a imagem de simpáticos e bobos asiáticos de câmeras fotográficas à mão; turistas mais ou menos contidos.

Evidentemente, a mobilização desses estereótipos e pré-noções não visa apenas descrever as mencionadas seleções nem tampouco reafirmar o porque das seleções européias e sul-americanas serem melhores, mas seguramente também a superioridade distintiva dos atributos, valores e disposições pelos quais se constrói e se visualiza a auto-imagem que os ocidentais fazem de si mesmos.



sábado, 3 de abril de 2010

Universal e particular: o que fazer com as burcas?



Passo agora para alguns breves comentários acerca do debate sobre a proibição ou não proibição da burca, tema da reportagem expressa no último post.

Quando os “outros” adentram em nossas fronteiras eles trazem inscritos em seus corpos e gestos as marcas de suas terras e sociedades. Carregam-na, mesmo a contragosto, para dentro de nosso mundo, e a exposição crua das diferenças que adentraram chacoalham nossas pressuposições. Um problema está claramente posto: o que fazer com essas diferenças? Tratá-las com reconhecimento na medida em que estão em consonância com nossos valores e normas e com repressão na medida em que afrontam/diferem destes últimos? Então é isto: devemos alçar nossa sociedade e desenho normativo como a medida de todas as coisas? Uma resposta etnocêntrica não está à altura do problema, pois repousa na própria normatividade das sociedades ocidentais modernas uma pretensão à universalidade e cosmopolitismo.

Uma atitude etnocêntrica é uma resposta particularista, portanto que contradiz a própria normatividade e identidade moderna. Então o problema passa a ser outro: como reconhecer/respeitar as especificidades dos de “fora”, dos “estrangeiros”, sem que isto implique na desagregação de nossas pressuposições normativas – laicidade, universalidade, isonomia, etc.? Ou, como preservar os princípios normativos abstratos modernos – cidadania, igualdade – sem que isto signifique subsumir ou negligenciar desigualdades/diferenças concretas? O que está em tensão é evidente: o conflito entre universal e particular, como conciliá-los?

Questões complicadas como pode perceber o leitor. Notadamente, como compreendeu Cadu, em seu comentário à reportagem referente ao debate sobre a burca, a Bélgica, e a também a França acompanhada por outros países da Europa ocidental, optou por uma política da universalidade, baseada na igualdade de todos os seres humanos em torno de certos princípios gerais e universalmente válidos, e que somente reconhece/tolera/permite determinadas diferenças e práticas culturais na medida em que estas estão em harmonia com aqueles princípios universalmente válidos e estendidos a todos.

No entanto, mais do que constatar a tensão entre universal e particular, é preciso perguntar o que anima e quem reivindica o manejamento de princípios universalistas como elementos de justificação à proibição do uso da burca em espaços públicos. Republicanismo ou islamofobia? Defesa de ideais democráticos e emancipadores ou medida populista para abocanhar votos nos extensos setores xenófobos e direitistas dos países europeus? A meu ver, a fronteira entre um e outro não é tão clara e definida. Além do mais, na Europa, o tema das burcas ou hijabs goza de uma atratividade político-midiática bastante forte.

Essa atitude do governo belga em insistir na proibição do uso em espaços públicos da burca denota a seguinte postura em relação às diferenças: “somente os aceitamos se vocês se tornarem, no espaço público – no espaço da circulação e exposição das diferenças e também o espaço das decisões – os mais próximos e iguais possíveis de nós”. Ou seja, a assimilação/reconhecimento somente se dá em função da aceitação/submissão pelos “estrangeiros” dos valores universais reguladores, que são, na verdade, valores europeus. Fora da norma e das fronteiras européias, os “estrangeiros”, as “mulheres de burca” continuam sendo “outros”. Estes só se tornam “iguais”, humanos em igualdade de direitos e dignidade, no espaço sancionado pela norma européia, ou melhor, mediante sua submissão a esta.

Um outro ponto recorrente na discussão sobre as burcas é a necessidade da emancipação das mulheres mulçumanas. De fato, a meu ver, a burca é um instrumento de sujeição, de controle do corpo feminino, ainda que brinde identidade, reconhecimento, pertencimento e beleza para algumas. Há aquelas, mulçumanas, que vêem na burca simultaneamente um prêmio, uma prova de obediência e uma forma de proteção de sua honra e modéstia, blindada do desejo masculino. Mas há também mulheres mulçumanas que encaram sua obrigatoriedade como imposição masculina, restrição, controle e disciplinamento.

Entretanto, se de fato o que interessa e move esse debate é a emancipação das mulheres, por que não se ver a mesma energia e dedicação política por parte dos interessados para equalização salarial entre homens e mulheres, ou sobre os efeitos nocivos das políticas de família estigmatizantes das mulheres/mães pobres, ou o abuso da publicidade na representação do corpo feminino que o reduz a um mero objeto? Quem é mais emancipada uma mulher mulçumana que trabalha, estuda e sustenta uma família ou as francesas “bon chic” a bater perna pela Champs-Élysées?

Sob o manto republicano da universalidade e emancipação existe muito de unilateralismo e dominação velados. Negar o acesso ao espaço público por razões de vestimentas ou religiosas me parece mais anti-republicano do que o uso das burcas.

A meu ver, políticas de controle e proibição, tais quais as expressas na reportagem, não enfrentam a principal questão, pois não há aprendizado, diálogo, enriquecimento mútuo, trocas e produção de reciprocidades de sentidos culturais através da confrontação de idéias, percepções e hábitos distintos. O conflito intercultural, o lidar com a diferença que perturba e chacoalha nossas pressuposições – e as dos outros também - e que as fazem se mostrar como aquilo que de fato são, isto é, como pontos de vistas particulares e provisórios, é deixado inteiramente de lado, suprimido em nome da segurança e reprodução de um modelo integrador e assimilacionista ilusoriamente universalista.

A questão a se enfrentar é: uma vez que vivemos num mundo globalizado onde o contato com as diferenças é inevitável, como produzir sentidos emancipadores mútuos através do conflito/diálogo intercultural mediante o qual as identidades, ou melhor, as identificações, valores e práticas culturais possam ser tratadas como realidades abertas, construídas e re-construídas historicamente, segundo a experiência sócio-política dos sujeitos? Um diálogo/conflito intercultural que não dispense um horizonte de pretensões universalistas de direitos – à dignidade, à igualdade e à liberdade, por exemplo -, mas que o inscreva no interior do movimento das discussões em torno das práticas e identificações culturais.

Que se interpele as mulheres mulçumanas com as seguintes questões: “por que somente às mulheres é colocado a obrigatoriedade de cobrir quase por completo o corpo?” “Quem decidiu e instituiu essa prática? Homens e mulheres em discussão? Ou somente os homens?” “Qual é o poder de decisão e interferência das mulheres nos assuntos religiosos?”

A cultura não é uma negociação de sentidos, como pensa o antropólogo americano Clifford Geertz, operada a partir de um consenso sobre as interpretações, mas sim, como pensam Nietzsche, Foucault e Bourdieu, o produto tenso e mais ou menos duradouro de um processo de imposição de sentidos arbitrários e apropriação de significados obtidos, impostos e conservados graças à diferença de força e relações de hegemonia e dominação específicas.

A grande dificuldade desse possível diálogo intercultural reside na mediação institucional, como formatá-lo institucionalmente. De todo modo, creio ser mais proveitoso políticas que ensejem uma crítica de mão dupla na tentativa de proporcionar um maior distanciamento e estranhamento aos indivíduos em relação à sua própria cultura e sociedade, discutindo as relações de poder e de hegemonia constituintes das identificações e práticas em questão, inclusive dessas políticas e do próprio diálogo/conflito intercultural – a desigualdade de capitais culturais e econômicos, a linguagem, gênero, etc.. A meta dessas políticas deve ser sempre a produção de efeitos de hibridização e complexificação recíprocos e potencialmente “mais democráticos” para os envolvidos.