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sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Censura!


A psicanalista, Maria Rita Kehl, foi demitida pelo jornal O Estado de S. Paulo, depois de escrever um pequeno artigo - leia-o aqui - sobre a "desqualificação" dos votos dos pobres. Desqualificação essa posta em marcha e agitada pela própria impresa e, sobretudo, pelas chamadas "correntes" de email. O curioso é que essa imprensa, que demite por causa de divergência de opinião, é a mesma que esperneia aos quatros cantos sua suposta condição de ameaça de cerceamento e censura pelo governo Lula. 

Deve ser duro para O Estado de S. Paulo tem que engolir de uma só vez, por um lado, o fato inconteste de que agora "os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor", e que, por isso, votam em causa própria, raciocinam e agem segundo a defesa de seus interesses e, por outro, que intelectuais do porte de Maria Rita Kehl defendam as políticas sociais responsáveis por sua nova situação. A pressão de "baixo pra cima" que os mais pobres e os movimentos sociais exercem contra as elites se tornou, graças ao governo Lula, mais frequente, mais forte e, especialmente, assegurada como legítima e respaldada pelo governo. 

O poder sobre os "corações e as mentes" que a imprensa advoga como sua prerrogativa é cada vez mais questionado.  A ela resta, por meio de ações preconceituosas, autoritárias e falaciosas, tentar rebaixar as iniciativas dos mais pobres, perseguir aqueles que tentam pensar contra os preconceitos vigentes e conturbar e inventar crises para enfraquecer o governo em relação à sociedade.


quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O Conservadorismo ataca! Uma democracia sem povo

Ontem, um punhado de personalidades liberais e tucanas lançou um "Manifesto em Defesa da Democracia" - leia na íntegra aqui. A ameaça à democracia? Lula e o PT, evidentemente. O assunto? A mesma e enfadonha ladainha, sem nenhuma substância relevante para um debate intelectual e político de fato; isso que torna os principais jornais e revistas do país tão desinteressantes.

Entre os ressentidos estavam juristas, atores, professores universitários da USP, jornalistas, artistas, enfim, os nomes de sempre; Celso Lafer, Ferreira Gullar, José Arthur Giannotti,  José Álvaro Moisés, Bóris Fausto, Leôncio Martins Rodrigues e Lourdes Sola e outros. Sob a aparência de um senso agudo de civismo, crítica e democracia o que se ler nas breves linhas do "Manifesto" é uma indisfarçável hipocrisia elitista e preconceituosa.

O ressentimento é devido ao fato do governo Lula ter retirado das elites tradicionais deste país a crença e a missão civilizatória que elas piamente se agarram como definidoras de seu caráter e de sua função histórica para o Brasil, a saber: de que elas representam a grande força de esclarecimento e progresso do país. Essa perda irreparável atinge implacavelmente o narcisismo de nossas classes abastadas.

Na cabeça dos temerosos tucanos e liberais, a democracia necessita ser protegida da turba, do aparelhamento, do clientelismo e do carisma de líderes demagógicos. Obviamente, deve ser protegida unicamente por aqueles que de fato e por mérito a compreendem em sua essência e pureza. Daí a onda de denuncismo atual. Para os “descontentes” liberais, o PT contaminou a democracia com um sujeito que até então, no Brasil, só existia nos cálculos do poder; o povo.

Mas o que querem esses “descontentes”? Por acaso, o governo suprimiu arbitrariamente alguma liberdade essencial? As relações entre o governo, o PT e o empresariado são marcadas por animosidades, antagonismo e interferência direta e unilateral? A imagem internacional do Brasil é de um país autoritário? Não.

O que as elites “descontentes” querem é que o povo volte a ser apenas um número, ou seja, algo que elas sabem que existe mas que é desprovido de corpo e voz. O povo mais não deve ser do que um nome e um registro eleitoral ou uma massa informe desprovida de idéias e habilidades cognitivas. O povo só interessa às elites como objeto de poder; objeto de filantropia e caridade, objeto de projeto social, objeto de políticas de segurança etc.. No governo Lula, o povo deixou de ser uma abstração. É isso que incomoda e aflige. Uma democracia sem demos é o que eles defendem.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

A ralé brasileira: Entrevista Jessé Souza

Entrevista realizada pelo jornalista Uirá Machado, da Folha de S. Paulo, cedida na integra ao sempre excelente sitio Gramsci e o Brasil.  Jessé Souza é coordenador do Centro de Pesquisa sobre Desigualdade Social da Universidade Federal de Juiz de Fora e, com André Grillo e outros, lançou recentemente o livro A ralé brasileira: quem é e como vive (Belo Horizonte: Ed. UFMG), em que estuda as características dessa “parcela da população que vive como subgente”.



Diversos estudos mostram que a proporção de brasileiros vivendo abaixo da linha de miséria caiu 43% desde 2003. Em seu último livro, o senhor diz ser falsa a tese de que a desigualdade brasileira está desaparecendo. Por quê?

Em primeiro lugar há que se dizer que esses números são expressivos e refletem tanto o efeito do recente crescimento da economia brasileira, quanto, também, o sucesso inegável de diversas políticas sociais do atual governo. Os índices que demonstram recuo na miséria ou pobreza a partir de um patamar absoluto de renda, dizem, no entanto, apenas que a pobreza absoluta diminuiu. A desigualdade é um conceito relacional e diz respeito à distância — no nosso caso o abismo — entre as diversas classes sociais que disputam recursos escassos em uma sociedade dada. Existe aqui, portanto, o risco de que o “fetiche do número” encubra o principal.

O principal é que o Brasil é uma das sociedades complexas mais desiguais do planeta, porque entre 30% a 40% de sua população têm inserção precária tanto no mercado quanto na esfera pública. Existe toda uma “classe social”, nunca percebida enquanto tal no debate público — a não ser fragmentariamente enquanto temas soltos e sem relação entre si como “violência”, “desqualificação da mão de obra”, “insegurança pública”, “repetência escolar”, “criminalidade”, “transporte público”, “saúde pública”, etc. — que tende a reproduzir sua precariedade indefinidamente. Imaginam-se 500 problemas para não se ver o único problema efetivo que é a raiz e o núcleo de todos os outros. Fragmenta-se indevidamente a realidade e confundem-se as hierarquias das questões para não se ver o óbvio: que somos uma sociedade altamente conservadora e perversa que aceita conviver com uma porção significativa da sua população vivendo como “subgente”, com empregos precários e sem articulação política de seus interesses.

É esse fato, e não nenhum outro, o que verdadeiramente nos separa das sociedades política e moralmente mais avançadas do chamado “primeiro mundo”. Essa classe social, que chamamos provocativamente de “ralé”, num pais que eufemiza, nega e jamais discute seus conflitos de frente, é a mão de obra barata a serviço das classes média e alta que podem — contando com o exército de empregadas, faxineiras, moto-boys, porteiros, zeladores, carregadores, babás e prostitutas, para o serviço pesado e desvalorizado — se dedicar às ocupações rentáveis e com alto retorno em prestígio e reconhecimento. É isso que chamo de “desigualdade abissal” como nosso problema central. Os outros são “nuvens de fumaça” para que não se perceba o que é importante e o que hierarquicamente deveria vir primeiro.


O Bolsa Família é frequentemente apontado como um dos grandes trunfos do governo Lula. Qual sua avaliação sobre esse programa?

O bolsa família tem extraordinário impacto social, econômico e político, com investimento público relativamente muito baixo. É incrível que não se tenha pensado nisso antes. Mais incrível ainda que exista gente que é contra. Boa parte da dinamização do mercado interno brasileiro tem relação direta com o bolsa família, como tivemos ocasião de ver empiricamente em nossa última pesquisa, já no prelo, acerca da “nova classe média”, denominação, aliás, muito infeliz e que criticamos na pesquisa.

Por outro lado, o bolsa família não tem condições, sozinho, de reverter o quadro de desigualdade e “incluir” e “redimir” a “ralé” enquanto classe social precarizada em todas as dimensões. Esse é um desafio que tem que ser de toda a sociedade brasileira, que envolve processos de conscientização em todos os níveis. Muda-se uma sociedade quando esta “aprende coletivamente” e ascende a novos patamares de consciência moral e política, por exemplo, “se responsabilizando”, sem procurar bodes expiatórios fáceis, pelas mazelas sociais que produziu historicamente. Botar a culpa no Estado é fácil. Mas não existe ação estatal realmente efetiva sem conscientização social também efetiva e real.


Em A ralé brasileira, o senhor critica a visão da educação como panaceia para os males do país. Mas é justamente nessa área que o setor empresarial armou uma de suas mais fortes bandeiras, o “Todos pela Educação”. Trata-se de um equívoco de quem se engajou nessa campanha?

É claro que a educação é um fator fundamental para o progresso social em todas as dimensões. O problema é que a competição social não começa na escola. Ela começa em casa, no berço, na imitação e na identificação afetiva das crianças com quem elas amam. Se os pais ou figuras de referência são indivíduos de classe média ou alta, ou seja, indivíduos que aprenderam a ser disciplinados, autocontrolados e a verem o futuro como mais importante que o presente, vamos ter também certas virtudes de classe, como a que permite a “capacidade de concentração”, algo determinante no sucesso escolar e depois no mercado de trabalho.

A capacidade de se “concentrar”, vimos isso repetidas vezes na nossa pesquisa, não é “natural”. É um aprendizado de “classe”, de certas classes privilegiadas, privilégio este transmitido de modo afetivo e “invisível”. É um “privilégio de sangue”, na verdade, e não produto de qualquer “mérito individual”. De acordo com a própria justificação moral tanto do mercado quanto da sociedade modernas, fundada na pressuposição da “igualdade de oportunidades”, o que temos é toda uma classe social esquecida, abandonada e construída para servir, a baixo custo, com trabalho sujo e pesado, às necessidades das classes média e alta brasileiras que possuem privilégios sem igual na Europa e nos EUA. Sem que se considere que as crianças de classes sociais diversas chegam a escola como vencedoras ou como perdedoras já aos 5 ou 6 anos de idade, então o que iremos ter é a uma escola que só vai corroborar e oficializar o engodo do “mérito caído do céu” de uns e legitimar, com a autoridade do Estado e a anuência de toda a sociedade, o “estigma” dos outros.

É precisamente desse modo, que o abandono de uma sociedade perversa, que nunca se responsabilizou — nem quer se responsabilizar — pela miséria que ajudou a criar e a reproduzir, se transforma em “culpa individual” da própria vítima do abandono. É o pobre, que não teve a oportunidade de incorporar os pressupostos emocionais e sociais de qualquer processo de aprendizado, que se torna o “burro”, o “preguiçoso”, o “tolo”, em suma: o culpado do próprio destino. Existe melhor legitimação para a reprodução infinita de todos os privilégios?

A eleição presidencial deste ano está polarizada entre dois candidatos com um discurso gerencial. Para muitos, isso indica uma certa maturidade do país, que conseguiu consolidar suas instituições e agora precisa administrar sua economia. O senhor, contudo, critica duramente o discurso economicista. Por quê?

A pergunta enseja que nos perguntemos, em primeiro lugar, o que é “maturidade”. Maturidade, seja na dimensão individual ou coletiva, é a capacidade de perceber e de lidar com os inevitáveis conflitos e contradições da vida. Uma sociedade é madura quando ela olha de frente e sem medo para seus conflitos e contradições principais e aceita o desafio de resolvê-los. Reduzir e amesquinhar os conflitos sociais às questões técnicas de administração econômica é o contrário de maturidade.

Minha crítica ao que chamo de “discurso economicista” não é também uma negação da extraordinária importância da economia, nem muito menos uma crítica pessoal aos profissionais da economia. Minha crítica é à extraordinária pobreza de um debate público que reduz, distorce e amesquinha todas as questões e conflitos sociais aos imperativos da reprodução da economia. A inversão é patológica e reflete uma sociedade doente: ao invés do mercado ser pensado como servindo à sociedade, é a sociedade que é percebida como “insumo” do mercado. A penetração desse modo de pensar se dá de maneira, ao mesmo tempo, imperceptível e virulenta: terminamos por nos avaliar sempre pelo tamanho de nosso PIB e não pela forma que nos tratamos uns aos outros em sociedade.

O senhor afirma que o “mito da cordialidade brasileira”, de Gilberto Freyre, resulta numa “aversão a toda forma de explicitação de conflito e de crítica”. Lula foi um presidente que buscou evitar conflitos a todo custo, bem ao gosto de sua tradição sindicalista conciliadora, montando inclusive um governo de coalizão. Ele contribuiu para empobrecer o debate acadêmico e político?

Qualquer político tem de conciliar interesses contraditórios. Não existe fórmula prévia que possa definir de que modo e em que medida deve-se conciliar ou quando se deve partir para o enfrentamento. Apenas os resultados práticos que se alcançam pode nos dizer se, no caso, tratou-se de uma “boa conciliação”, que permitiu avanços sociais importantes, por exemplo, ou uma “má conciliação” que produziu resultados pífios.

Quando falei de “aversão ao conflito e a crítica” sequer pensei também numa crítica a Gilberto Freyre, que afinal criou um “conto de fadas para adultos” convincente — que é o que todo mito nacional na realidade é —, além de muito eficiente e com ampla penetração nacional. Não existe nada de mau nisso. Toda sociedade precisa de mitos que evoquem sentimentos de solidariedade e pertencimento coletivo.

Problemático é o que a inteligência nacional fez com esse mito. Nossa ciência social dominante — que influencia todo o debate público, dado que apenas a ciência possui a legitimidade para falar com autoridade sobre qualquer assunto de interesse público — se apropriou do mito “positivo” de Freyre e inverteu o sinal. Tudo o que era motivo de elogio para Freyre passa a ser negativo. Sérgio Buarque é o pioneiro dessa inversão especular de Freyre e, depois dele, praticamente todos os grandes intérpretes brasileiros desde então. Uma “cultura” emotiva e sentimental, antes elogiada, passa a ser percebida como índice de pré-modernidade. Ainda que os “homens cordiais” de Sérgio Buarque, indignos de confiança e “amigo dos próprios interesses”, sejam todos os brasileiros, pouco a pouco apenas o Estado será percebido como a “casa da cordialidade” que confunde o público e o privado. Por algum milagre, que ninguém explica, o mercado fica a salvo da “cordialidade” e de seus males. A “brasilidade cordial”, definida como emotiva e sentimental por oposição à racionalidade e ao cálculo, torna-se o problema maior do Brasil e passa a habitar apenas o Estado ineficiente, politiqueiro e corrupto, definindo o conceito mais importante das ciências sociais e do debate público brasileiro até hoje: o conceito de “patrimonialismo”.

O conceito de patrimonialismo distorce e simplifica a realidade de várias maneiras, mas, sempre, na mesma direção: o mercado é percebido como a esfera idealizada de todas as virtudes e o Estado como a esfera que encerra todo o mal e toda a corrupção. Na verdade é um absurdo separar mercado e Estado, que são realidades interdependentes e um não existe sem o outro, e mais absurdo ainda imaginar que não exista corrupção também no mercado — e isso no mundo inteiro — não existindo qualquer privilégio “patrimonialista” brasileiro nessa questão. A última crise financeira e as sucessivas crises provocadas por balanços “maquiados” de empresas e de países inteiros — como no caso recente da Grécia — apenas deixam essa questão clara como a luz do sol. Como sempre o pior cego é aquele que não quer ver.

A verdadeira função deste “conceito” é dramatizar um falso conflito — entre mercado e Estado —, de modo a esconder todos os reais conflitos que nunca chegam sequer a atingir o patamar de tema digno de ser discutido, como precisamente no caso da reprodução indefinida de uma “ralé” de indivíduos precarizados por abandono e descuido. Os falsos conflitos estão sempre no lugar de conflitos reais. A dramatização de um conflito superficial e falso serve para que os conflitos que cindem a sociedade brasileira de fio a pavio sequer sejam percebidos como problema. É assim que se constrói uma sociedade perversa e conservadora que ainda se imagina “crítica” e “moralmente indignada”.

O senhor tem argumentado que o conceito de classes sociais não pode se limitar à questão da renda e que apenas uma nova compreensão das classes sociais poderia levar o país a combater de fato a desigualdade. Como isso se daria?

A redução das classes sociais ao seu substrato apenas econômico, seja à renda ou ao lugar na produção, erro comum tanto ao liberalismo dominante quanto ao marxismo enrijecido dominado, implica “falar” de classes sociais sem que nada se compreenda de sua importância. Percebem-se apenas os aspectos “materiais” como dinheiro ou transmissão de propriedade, e se “esquece” da transmissão de “valores imateriais”, como as formas específicas de agir e reagir no mundo, os quais, esses sim, constituem os indivíduos como indivíduos de classe.

São os valores e as disposições para o comportamento individual incutidos desde a mais tenra infância na socialização familiar típica de cada classe que criam os privilégios positivos de um lado e negativos de outro. Como regra, as virtudes são todas do “espírito”, como a inteligência, o cálculo, a razão distanciada, ou até o “expressivismo blasé”; já os vícios, por outro lado, são todos ligados ao “corpo”, como a sexualidade sem controle, os afetos, a emotividade, a força muscular, etc. As classes superiores “in-corporam” — literalmente tornam “corpo”, automático, como quem anda ou respira — as virtudes espirituais como a capacidade de concentração, por exemplo, decisiva no sucesso escolar. As classes inferiores “in-corporam” as virtudes ambíguas do corpo, assim como todos os outros dominados como as mulheres — por oposição ao homem — e o negro — por oposição ao branco.

Em todas as dimensões da competição social por recursos escassos de todo tipo, no entanto, são as virtudes do espírito aquelas que recebem bons salários, prestígio e reconhecimento social. As classes do “corpo” tendem a ser literalmente “animalizadas”, podendo ser usadas e instrumentalizadas e até mortas por policiais sem que ninguém se comova com isso. O fato é que existem sociedades — que aprenderam a enfrentar seus desafios de frente — que reduziram o percentual de classes excluídas e animalizadas a um mínimo. Penso aqui nas principais democracias europeias. Nós escolhemos nos indignar moralmente com falsos conflitos e negar patologicamente qualquer responsabilidade social pela miséria econômica, existencial e política de parte considerável de nossa população.

A “meritocracia” está em larga medida consolidada nas sociedades contemporâneas, mas o senhor diz ser falsa a ideia de que o desempenho é o fator diferencial entre os indivíduos. Por quê? E qual a alternativa?

O problema não é com a idéia do “desempenho diferencial” como fundamento do mérito individual. O problema é o “esquecimento” de que todo “mérito individual” é socialmente construído. Isso tem a ver com o “esquecimento” também das heranças imateriais, emotiva e afetivamente transmitidas, que compõem as diversas classes sociais. A sociedade constrói — pelo “privilégio de sangue”, ou seja, pela sorte de se nascer na “família certa” — indivíduos destinados ao sucesso e ao “mérito”, que são os indivíduos aos quais são transmitidos os pressupostos emotivos, afetivos e morais que garantem o sucesso na escola e depois no mercado capitalista, e outros indivíduos destinados ao fracasso e ao não-mérito, ou seja, ao “estigma”, por não terem tido a mesma chance e por terem nascido na “família errada”, ou seja, por exemplo, numa família da “ralé”.

Qual a “justiça” que há nisso? Esse argumento atinge o coração da legitimação social de qualquer sociedade moderna, posto que as sociedades modernas nasceram e se legitimaram, em oposição a todas as formas pré-modernas de sociabilidade, precisamente pela idéia da superação de todo “privilégio de sangue”, ou seja, pela pressuposição da superação de todo privilegio de origem familiar. A reprodução da legitimidade no tempo de toda sociedade moderna depende também da manutenção dessa ilusão. Transferir a culpa social para o próprio indivíduo, como acontece com os membros de nossa “ralé”, que se imaginam efetivamente “burros” e incapazes de aprender, é parte fundamental dessa estratégia de distorcer a realidade para a manutenção indefinida de privilégios nada meritocráticos.


O governo Lula contribuiu em alguma medida para reduzir essa desigualdade abissal a que o senhor se refere? E o governo FHC?

As sociedades que conseguiram superar efetivamente, em medida significativa pelo menos, a separação entre gente e subgente e entre cidadão e subcidadão o fizeram como esforço de toda a sociedade e não apenas do Estado. O Estado não é um ente todo poderoso que possa atuar, com sucesso, contra consensos sociais arraigados. Houve avanços inegáveis nas últimas décadas como o ganho de racionalidade econômica no período FHC e a tentativa bem sucedida, ainda que incompleta, de repor a questão social como a questão central brasileira no período Lula. Mas o futuro pode ser mais audacioso. O crescimento econômico continuado e a descoberta de novas riquezas podem ser mecanismos importantes para redefinir e transformar o padrão excludente de sociedade que tem sido o único que conhecemos. Mas a mudança social é muito mais do que condições econômicas favoráveis. Elas exigem pensar o Brasil de modo novo. Um Brasil que encare seus conflitos de frente sem muletas fáceis do tipo “Estado patrimonial”.

O senhor diria que os dois principais candidatos empobrecem a discussão ao reproduzir um discurso gerencial de viés economicista?

Existe um aspecto “gerencial” que é perfeitamente legítimo e como tal ele enriquece o debate político. Há que se usar bem os recursos disponíveis e esse tipo de “racionalidade técnica” é indispensável. Mas a racionalidade técnica é um “meio” não é um “fim”. A questão relevante é sempre para que ou para quem serve a racionalidade técnica? Quando se fala da racionalidade técnica como um fim em si é porque não se pode nomear para quem ou para que ela serve.

Quando o senhor diz que ainda existem privilégios de sangue, parece que a Queda da Bastilha não ressoou por aqui. É isso mesmo? Nossa sociedade é medieval desse ponto de vista?

Os privilégios de sangue são, na realidade, privilégios de classe já que a reprodução emotiva e sentimental das classes se dá no seio das famílias que são, por sua vez, formatadas de acordo com uma herança de classe muito específica. Todas as sociedades modernas procuram esconder o pertencimento de classe posto que só ele pode esclarecer a origem de todos os privilégios que se reproduzem no tempo. As sociedades modernas, todas elas, têm que se apresentar como “sociedades de indivíduos”, se possível sem passado e sem vínculos sociais e comunitários. A imensa maioria dos filmes, novelas, livros de grande venda e propagandas de todo tipo reforçam essa ilusão. O “esquecimento” do vínculo que liga os indivíduos a classes sociais determinadas é, em qualquer sociedade moderna, o maior segredo da dominação social porque permite que os privilégios sejam percebidos como “mérito individual” e, sejam, portanto, justificados.

Mas as sociedades não são iguais. Existem sociedades politicamente e moralmente mais avançadas do que a nossa porque foram sociedades que aprenderam a conviver e a institucionalizar o conflito social ao invés de negá-lo patologicamente como fazemos. Nessas sociedades existem também canais alternativos para idéias e concepções alternativas. Mas nós também podemos aprender. O que foi feito pelo homem pode ser refeito por ele. Perceber o mundo como contingente e possível de ser modificado — e não como “natural” e como o único possível — é sempre o melhor começo.


quarta-feira, 10 de março de 2010

Entrevista: ''O corpo magro, esbelto, é um corpo de classe''

Segue abaixo a entrevista com a psicóloga Joana de Vilhena Novaes, que atualmente coordena o Núcleo de Doenças da Beleza da PUC-Rio, onde pesquisa sobre "O corpo nas camadas populares".

Confira alguns trechos da entrevista. Para lê-la na íntegra clique aqui.

IHU On-Line – Como se construiu, ao longo do tempo, a obsessão nacional pelo corpo perfeito? Quais as origens do corpo se tornar objeto de culto e consumo?

Joana de Vilhena Novaes - Isso não tem nada a ver com a imagem das índias, com uma sexualidade liberta, ou um corpo que é exposto. O que ficou de resquício desse período é a ideia de um corpo que é roupa. A brasileira tem um uso muito específico do corpo, ao contrário da europeia e da americana, que usam a roupa para esconder e disfarçar, envelopar seu corpo. O código vestimentar é muito diferente num corpo de classe. A brasileira usa o corpo como símbolo de status. A roupa é meramente um acessório. Quanto melhor esse corpo está formatado, menos roupa precisará. Essa simbologia do culto ao corpo ser tão significativa no Brasil no sentido das mulheres brasileiras serem consideradas aquelas com os corpos mais bem esculpidos do mundo, é alguma coisa que sinaliza o investimento brutal nesse corpo como capital. É um investimento de tempo, dinheiro. Como em todo projeto dessa monta, está implícita uma série de sacrifícios e renúncias de tempo e dinheiro, ou seja, as qualidades estéticas que esse corpo apresenta para ser exposto, funcionam quase como um sistema de meritocracia.

Quanto mais formatado este corpo estiver, a sua recompensa a toda essa disciplina é expô-lo da melhor maneira possível. Isso é uma característica que define a cultura que vivemos, mas também está em consonância com valores que nos são contemporâneos. No Brasil, é como se isso fosse levado ao paroxismo, ao extremo. Que valores são esses? Em última análise, esses valores apontam para um fenômeno social mais amplo que é a moralização da beleza. É você sinalizar ou reconhecer numa cultura como a nossa, de corpolatria, que cada desvio estético, (na medida em que se cuidar passou a ser um dever, e não um direito), passa a ser criminalizado. Cada transgressão, gordura e sinal de envelhecimento que não são devidamente disfarçados, o sujeito passa a ser criminalizado e culpabilizado.

IHU On-Line – Por que a mulher pobre tem uma relação mais livre com seu corpo?

Joana de Vilhena Novaes - Esse é o tema da minha pesquisa de pós-doutorado na UERJ. Nela, comparo o discurso de mulheres de classe média-alta e os usos que elas fazem de seu corpo, com o discurso das mulheres de classes populares. Faço uma distinção, um estudo comparativo. Procuro compreender como, embora lançando mão das mesmas práticas corporais (as mulheres pobres também malham, também estão nas filas dos hospitais públicos para fazer cirurgia plástica de cunho estético, também fazem dieta e cirurgia bariátrica) elas têm um uso muito diferenciado e significativo. Nesse sentido, falo que elas têm uma relação mais liberta, prazerosa e lúdica, menos persecutória, do corpo. Isso não tem a ver com ter uma visão acrítica do corpo, caso contrário, elas não estariam malhando nas academias da favela e fazendo lipoaspiração.

Discursos diferentes

Se você perguntar às mulheres das classes mais abastadas porque elas malham e querem emagrecer, usarão um discurso sofisticado, mas individualista, dizendo que o fazem para elas mesmas. Esse discurso aponta para uma insatisfação com a imagem corporal em relação mais tensa com o espelho. Mas isso nunca é justificado como querer ser um objeto de desejo mais atraente. Pelo menos esse não é um discurso manifesto. No caso das mulheres das favelas, elas dizem claramente que essas intervenções no corpo são para “ficar gostosas”, porque querem capturar o olhar do marido, porque querem passar pelas quebradas da comunidade e serem chamadas de gostosas, ou querem “passar o rodo geral no baile funk”. Isso aponta para uma sexualidade que é vivida de uma maneira muito mais plena, porque não significa desconsiderar ou perceber que precisa emagrecer, por exemplo. Falo isso porque esse foi o mote que me fez ir a campo e investigar como essas mulheres usavam o próprio corpo.

Prisioneiras do corpo

Muitas vezes se observa nas classes populares, e isso não é uma prerrogativa só do Rio de Janeiro, que as mulheres acima do peso colocam short, piercing, usam top e não disfarçam seu corpo. Elas o expõem, apesar de toda camada de gordura que possa existir, ao contrário do discurso do que observamos em termos de códigos vestimentares de uma mulher de classe média alta. Esta, se estiver acima do peso, não irá se expor. Se tiver umas gordurinhas, usará uma bata mais solta, subirá um pouco a calça, ou deixará o biquíni de lado, preferindo o maiô. Essas mulheres podem até deixar de frequentar determinados pontos da praia, onde só vai gente sarada. A mulher pobre, não.

Não devemos, no entanto, cair na análise simplista ou equivocada de achar que as mulheres das comunidades carentes não se percebem como cheinhas, gordinhas e estão sempre safisteitas com o corpo que têm. Não, pelo contrário. Elas têm acesso à informação, leem revistas, veem a mesma novela que as mulheres de classe abastada assistem. O discurso ao culto ao corpo é democrático. A diferença é que elas não estão aprisionadas nesse corpo. Elas sabem que precisam perder peso, o que é uma dieta balanceada, ao contrário de todos os estudos clássicos sobre o corpo nas classes populares, que apontavam para uma população que estaria alienada do discurso médico que as faria comer e viver melhor. A mulher de classe baixa sabe o que deve comer para emagrecer. Conversando com essas mulheres, seja nos postos de saúde ou nas próprias comunidades, elas garantem saber o que é uma alimentação balanceada. Entretanto, esse tipo de comida custa muito caro. Queijo “cottage”, por exemplo, não está na cesta básica, dizem elas.

Corpo de classe

O corpo magro, esbelto, é um corpo de classe. Uma geleia diet comparada à geleia comum é muitíssimo mais cara. O dinheiro para alcançar um projeto dessa monta é brutal. É por isso que é preciso pesquisar, no imaginário social, as raízes históricas desse corpo e da relação com a comida. A disciplina e a privação são valores máximos nas classes médias e altas: você está louca para comer aquele brigadeiro, ou um bife à parmeggiana, mas controla e mantém o seu investimento em relação ao corpo. Nas classes populares, o que se observa bastante é que a questão da privação está associada à pobreza, e a gordura à prosperidade e fartura. Já ouvi de uma mulher da favela que não adianta ficar tomando só sopinha e comendo biscoito Cream Cracker, porque aí vão achar que a pessoa está na miséria.

IHU On-Line – Pode-se falar, ainda, em ditadura da beleza? Por quê? Como as modelos e o uso do photoshop nas revistas contribuem para isso? Por outro lado, a senhora diz que apesar de procurar fazer ginástica e se inscrever em hospitais públicos para cirurgias de redução de estômago, as mulheres das classes baixas não reverenciam os rígidos padrões estéticos nacionais, preferindo a exuberância de Ivete Sangalo ao corpo magro de Gisele Bündchen. O perfil de beleza entre as mulheres está mudando?

Joana de Vilhena Novaes - Ao longo da história, há variações estéticas. Evidentemente, tamanha tecnologia a serviço da formatação da imagem cria uma expectativa nas pessoas que é perigosa. Acho que, quanto mais a pessoa vai subindo na pirâmide social, mais almeja um corpo mais descarnado. Você precisa ter um corpo mais curvilíneo, e não estar tão atento ao photoshop. Falo muito na questão do corpo de classe porque o corpo sempre é de classe. Na Revolução Industrial ou no Renascimento, havia corpos que eram ferramenta, como nas classes populares. Não era um corpo voltado para o prazer, mas para o trabalho. Naquela época, os magros eram os pobres, que morriam de peste, de fome, e porque não tinham os aditivos e especiarias para conservar a comida. Gordos eram os membros do clero e da burguesia. Esse era um corpo para poucos. Se agora a obesidade é uma questão de saúde pública, com estatísticas assustadoras no sentido de apontar que as pessoas engordam exponencialmente, é claro que o ideal é um corpo emagrecido e que tenha acesso a uma nutricionista para fazer uma dieta balanceada, verificar percentual de gordura, com personal trainer a fim de formatá-lo devidamente. Some-se a isso recursos como as massagens, spas etc.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

“O PT quer impedir que música que fala do Bolsa-Família seja cantada no carnaval”




Nesses últimos dias de carnaval, recebi um curioso email, cujo título era o seguinte: “O PT quer impedir que música que fala do Bolsa-Família seja cantada no carnaval”. No email, o que lemos são acusações de censura e de cerceamento da liberdade de expressão endereçadas ao PT. O alvo da suposta censura do PT seria uma certa “marchinha crítica” aos efeitos perniciosos do Bolso Família e do Fome Zero. A música de autoria de Vasco Vasconcelos seria tocada no carnaval de Recife em comemoração ao 31º aniversário do bloco Siri na Lata. Eis alguns trechos da marchinha:

“Chega de trabalho, basta de tanto ‘lero-lero’, não vou mais encher minhas mãos de calo, vou viver da bolsa do ‘Fome Zero’. Minha mulher está muito feliz, já pediu dispensa do trabalho. Não quer mais ser uma faxineira pra viver dessa bolsa brasileira. Por isso, eu canto ‘Obrigado Presidente!’ Por o senhor ter estendido a mão, distribuindo esmola via cartão, retribuído com a sua reeleição. Este é o país que vai pra frente com essa massa ociosa e contente, vivendo na ociosidade, ainda diz que isso é brasilidade.”.

Pois bem, como o perspicaz leitor já deve ter percebido, o que temos, tanto na letra da “marchinha”, quanto no alarde do email, são clichês que por si só já evidenciam a indisfarçável origem social e o (des)gosto ideológico. As críticas, ou melhor, as ladainhas da direita e da classe média a propósito do Bolsa-Família e congêneres, além da insuportável repetição, revelam, cada vez mais, não só o já batido preconceito de classe, mas um preocupante, estreito e ocioso espaço neuronal. É sempre a mesma história: comodismo, vagabundagem, populismo, clientelismo, esmola, compra de votos, etc. E as reações contra as argumentações contrárias às “críticas“ da direita e da classe média possuem, igualmente, a mesma e incansável nota: censura, cerceamento da liberdade de expressão, autoritarismo, etc. A esse nível quase não vale a pena o esforço de escrever e rechaçar tais disparates. Entretanto, um certo gosto pelo divertimento fácil e uma espécie de dever moral leva-nos para tal sacrifício.

Pouco adianta apresentar os efeitos benéficos, as estatísticas positivas, tais como a redução das taxas de desnutrição e mortalidade infantil, as aprovações e elogios internacionais ao Bolsa-Família e ao Fome Zero, pois a intolerância dos setores mais à direita da classe média não consiste em convicções intelectuais, mas em convicções morais, reativas. São, de fato, movidas por ressentimento, pelo gosto pela inferiorização dos outros e por tudo aquilo que de alguma maneira assegure aos seus próprios olhos um sentimento de poder e distinção social, intelectual, moral, em relação às populações pobres do país.

Na cabeça de alguns, certas classes, socialmente desvalorizadas, não podem exigir ou barganhar qualquer coisa, isto é, elas não gozam de reconhecimento moral nem legitimidade intelectual pra tal. Em outras palavras, no (falta) entendimento da direita e da classe média, é inadmissível, um absurdo, uma inversão de valores, que os pobres ponderem, negociem e valorizem suas energias produtivas, sua força de trabalho ou que almejem bens e serviços tidos como importantes e valiosos. O correto é que eles aceitem servilmente todas as condições que lhes forem postas. Afinal, quando se contrata um deles para algum serviço estar-se-ia, na verdade, prestando-lhes um favor, uma ajudinha a esses miseráveis ingratos. Recusar ser faxineira? “Que absurdo! Olha o comodismo, a preguiça! Eles não aceitam mais cortar a grama ao meio-dia por trinta reais! Culpa do governo!”.

A classe média não aceita a atitude dos trabalhadores pobres de poder elevar o semblante até um patamar de igualdade, de olhar, com dignidade, a todos segundo um plano horizontal. Atitude esta possibilitada graças à eficácia das políticas de redistribuição, como o Bolsa-Família, e de reconhecimento e inclusão, como as políticas de cotas.

Quando as classes socialmente desvalorizadas acumulam um certo capital social, graças a garantia de uma renda extra e por ter acesso à espaços e bens e recursos socialmente valorizados, e, por consequência, passam a agregar elementos outrora inimagináveis, isto desestabiliza a percepção hierárquica e o julgamento das classes sobre si mesmas e sobre as outras. Os pobres não são mais vistos, nem enxergam a si mesmos, objetivamente, como “sub-gente”, destinada a servir à classe média e a aceitar as remunerações pífias e todo tipo de condição e atividade subalterna. As disparidades objetivas que organizam o campo das diferenças, as disposições para subalternidade e as relações de hegemonia são abaladas. A única tática que resta, como exprime a marchinha, é a deslegitimação moral: “massa ociosa e contente”.

É muito curioso as valorações oportunistas acerca das relações entre o Estado e as classes sociais. Dinheiro do Estado para pobre é esmola, incentivo à preguiça, conquista de votos, etc. E quando o dinheiro do Estado é destinado para facilitar financiamentos, crédito, limitar as deduções fiscais sobre as atividades da classe média, ele é o que?

A reserva e a garantia de uma renda básica asseguram a possibilidade do manejamento reflexivo de elementos que, para perspectiva preconceituosa da classe média e da direita, são tidos como “estranho” e ilegítimo aos pobres. Como por exemplo, agregar como parte da negociação da força de trabalho elementos pessoais, como satisfação, prazer, tempo, condições de trabalho, valor da remuneração, etc. A conseqüência da ponderação desses aspectos, e outros mais - tais como, qualidade de vida, participação e a possibilidade de aquisição de bens de consumo - como elementos relevantes pelos segmentos mais pobres economicamente é o que incomoda. Ou seja, aquilo que possibilita um enxerga-se como igual, como sujeito de direitos, desestabilizando o que sustenta a diferenciação e o antagonismo sobre o quais se erguem os preconceitos e os estigmas.

O Bolsa-Família não produz comodismo, produz, entre outras coisas, uma maior valorização da força do trabalho, afinal, quando não se está desesperado por sobreviver, não se vende a força de trabalho por tão pouco ou por qualquer coisa. Produz condições mínimas para alargar o horizonte de expectativas para além da sobrevivência própria e dos familiares, e assim, poder tanto enfrentar os efeitos da degradação social quanto pressionar e exigir direitos sociais, medidas de proteção e acesso à serviços básicos e avançados e também condições de auxílio para consumir bens, etc. Desse modo, o destino que aos trabalhadores pobres era impingido de contentar-se em ser, segunda a expressão de Hannah Arendt, um Animal Laborans, ou seja, regidos pela total indistinção entre o ritmo de trabalho e o ritmo da sobrevivência biológica, é posto em xeque.

No que concerne a atitude do PT, em tentar vedar a execução da dita marchinha, apóio-a irrestritamente. Afinal de contas, trata-se de uma visível forma de manifestação de preconceito e depreciação gratuita. Assim como é imperativo coibir as manifestações de preconceito étnico, racial, de gênero, sexualidade, etc., por que se adotaria tratamento distinto nas expressões de preconceito de classe? Todas estas exprimem o mesmo e horrendo sentimento.

Alyson Thiago F. Freire

domingo, 10 de janeiro de 2010

O DESPREZO DAS CLASSES MÉDIAS

Nos últimos dias, um pequeno vídeo, do famoso apresentador de telejornais brasileiro Boris Casoy, foi divulgado na internet (http://www.youtube.com/watch?v=0H9znNpeFao). No mencionado vídeo, Boris Casoy ironiza e menospreza o fato, incompreensível e ilegítimo, na cabeça do apresentador, de garis, do “alto de suas vassouras”, desejarem “felicidade” ao mundo.

Por certo, pensava Casoy: “ora, o que esses garis, o que alguém que recolhe nossos dejetos pode entender acerca da felicidade? Ou melhor, que mérito ou legitimidade moral e cognitiva possui um ‘lixeiro’ – expressão de Casoy – para ousar desejar felicidade a quem quer que seja?”. O deboche do apresentador reproduz dois pressupostos acerca do valor e do lugar no mundo de determinados indivíduos: primeiro, que os garis, por sua condição social e de trabalho, “o mais baixo na escala do trabalho” – mais uma vez, expressão de Casoy -, não teriam a capacidade cognitiva de compreender um conceito como o de felicidade; segundo, as características inerentes de sua atividade profissional desqualificam-nos, do ponto de vista moral, transformando o seu simpático desejo de felicidade num absurdo. Por um lado um contra-senso cognitivo, “epistemológico”, se quiserem, de outro, um contra-senso moral. Em outras palavras, o apresentador queria dizer; “Ponham-se em seu lugar”.

Outra situação razoavelmente similar, dessa vez aqui mesmo na esquina do Atlântico, está ainda a desenrolar-se e circular em comunidades do Orkut, email’s e conversas. O resultado do último vestibular da UFRN levantou, nos setores médios da sociedade, algumas perplexidades, espantos e clamores. Perdoe-me a generalização, mas é muito curioso e divertido como a reação da classe média, obviamente, somente quando sente-se diretamente atingida e ameaçada, é, quase sempre, uma reação espalhafatosa e estridente, que incomoda à vista, os ouvidos e, principalmente, à inteligência. Pois bem, a mais nova comoção foi devido ao Argumento de Inclusão (A.I), que abona os candidatos que cursaram, com aprovação, os três últimos anos do ensino fundamental e todo o ensino médio na Rede Pública, com um acréscimo de 10% em seu argumento final. Tal benefício, segundo alguns, foi responsável por algumas “injustiças”, uma espécie de discriminação invertida que “retirou” vagas que, por desempenho e mérito, pertenceriam à candidatos da Rede Particular de Ensino. Inclusive, o primeiro colocado geral do vestibular 2010 teria alcançado tal feito graças ao A.I.

O que esses dois acontecimentos têm em comum? Ambos tratam, em boa medida, da percepção que determinadas classes sociais, ou setores de classe, possuem em relação às outras. Mais do que isso. Eles reproduzem uma hierarquia moral e cognitiva de desqualificação e deslegitimação que, a meu ver, condiciona e explica, em parte, à reação de deboche, no caso Casoy, e da sensação de ilegitimidade, de incômodo, de injustiça ao mérito, no caso do A.I e do acesso dos estudantes oriundos das escolas públicas. O lugar moral e cognitivo dos pobres, dos marginalizados, é percebido como um lugar indigno, incipiente moral e cognitivamente, portanto uma perspectiva incapaz, ilegítima e previamente desqualificada de aceder à espaços e/ou valores identificados com a auto-representação que as classes médias tem de si mesmas e dos espaços e recursos socialmente significativos.

O desprezo ou ódio de classe não é apenas uma aversão, um sentimento de desdém privado, um “não querer se misturar”. Suas conseqüências estão para além de reações mais ou menos psicológicas, afetivas, por parte de indivíduos. Elas dizem respeito a uma forma de violência baseada na supressão de sujeitos: supressão de sua dignidade, de sua capacidade de dá sentido e de argumentar, de seu direito a ter direitos, de sua qualidade de sujeito moral de suas ações. Tal supressão opera em função da imposição do sentido legítimo de certos valores – como o de felicidade - e espaços sociais – como a Universidade Pública. Consequentemente, o desejo do não-compartilhamento de determinados espaços sociais, doadores de prestígio e distinção, e a falta de reconhecimento do outro como sujeito são, com efeito, uma tentativa de manter um espaço “puro”, reservado apenas a uma classe social e a reprodução de seu mundo e status.

No Brasil, as fronteiras entre os espaços, sejam eles institucionais ou não, é uma constante. Nossa “elite” adorar cindir os espaços, segundo uma lógica de classe, mas também racial, de modo que estes separem e demarquem, claramente, quem são os ricos e os pobres, os brancos e os negros; primeira classe e segunda classe, áreas vip’s, camarotes e arquibancadas, cidade alta e cidade baixa, senhor e escravo.

A ironia de Casoy e a prescrição de estigmas – tais como a de que os alunos da escola pública serão profissionais menos capacitados, que sua entrada na Universidade comprometerá o nível de qualidade, ou que eles não acompanharão o desempenho dos demais – são formas de justificar a violência de anulação do outro através de meios mais ou menos racionais. A violência é instrumentalizada por meio de argumentos que visam justificar e corroborar, com uma aura racional, lógica e humanista, a exclusão efetiva e simbólica de uma classe.

A noção de classes que aqui utilizo, tem mais a ver com a percepção sociocultural das classes, com a reprodução de determinadas representações e consensos partilhados, que constroem impositivamente, e asseguram, um determinado sentido do mundo social, dos indivíduos e de suas identificações, do que com a localização e função delas no modo de produção. As diferenças de classe, como solidamente atesta a obra de Pierre Bourdieu, possuem uma realidade simbólica, ou seja, estão ligadas à determinadas práticas socioculturais de diferenciação, valores, hierarquia de gostos e a aquisição de certos bens e recursos escassos. Essa definição implica entender as classes como algo construído, algo que se trata de fazer por meio de ações específicas no mundo prático capazes de comunicação e conhecimento. Nesse sentido, para Bourdieu as classes sociais somente existem como um espaço social, um espaço de diferenças a ser definido, produzido, marcado e preservado, não como um dado (BOURDIEU, 1996: 26-27).

Mas de onde veio esta percepção desqualificadora, que faz com que as classes médias, no Brasil, sintam ojeriza em compartilhar espaços com os pobres, com aqueles que Florestan Fernandes intitulava “os de baixo”? Pois bem, de modo algum diz respeito à natureza perversa e maligna dos ricos. Maniqueísmos só embotam a compreensão. Essa percepção desqualificadora nada mais é que o produto incorporado, ao longo da história da colonização, monarquia e república do Brasil, da sistemática e objetiva domesticação e socialização na subordinação e exclusão dos pobres, negros e índios, como sujeitos políticos, das instituições ligadas à técnica, à Ciência, ao argumento, à competência, à cultura, à arte, a esfera pública etc.

Para ter uma idéia desse processo de integração na subalternidade, integração pela humilhação desqualificadora e de seu impacto na vida dos “condenados da terra Brasilis”, convém conhecer um livro que, infelizmente hoje no currículo do curso de Ciências Sociais, permanece preguiçoso nas estantes, e nas mentes de alguns professores, com gosto de poeira e traça; A integração do negro na sociedade de classe, de Florestan Fernandes. Lê-lo, hoje, com olhos atentos às elaborações, e às derivações contemporâneas, da sociologia crítica de Pierre Bourdieu, e das discussões que se esforçam em reinserir, política e epistemologicamente, a perspectiva pós-colonial dos subalternos do Ocidente, nos conduzirá, com propriedade e ponderações necessárias, ao um entendimento fundamental dos mecanismos estruturais e da produção e manutenção de constrangimentos objetivos responsáveis pela reprodução das desigualdades, dos estigmas e dos privilégios de acesso de classe.

Nesse livro de Florestan, podemos enxergar sob que condições – a instalação do Estado burocrático, constituição do capitalismo moderno, o desenvolvimento de um mercado de trabalho seletivo e competitivo, a urbanização etc. -, no Brasil, o ângulo de visão de uma classe sobre outra e uma hierarquia do valor dos indivíduos, de suas identificações sociais e raciais, adquiriram significação, plausibilidade e eficácia prática em função do processo mesmo de sua dominação e integração. Nos termos de Florestan (1975), é a instauração de uma “ordem social competitiva” - responsável pela classificação e diferenciação social que anui, sob o mesmo lastro, classe e preconceito –, baseada nos valores liberais modernos da ética racional, mérito, competição, igualdade legal, realização pelo trabalho, esforço individual, que produziu constrangimentos objetivos ao acesso e a realização dos negros e mulatos, dos “de baixo”, de suas potencialidades econômicas e culturais. Em outros termos, foram-lhe vedadas as condições de possibilidade para a assimilação e aprendizado de determinadas competências linguísticas, cognitivas, culturais - os pré-requisitos psíquico-sociais do trabalho intelectual, por exemplo - necessárias e valorizadas em uma sociedade democrática e moderna.

No próximo post, continuarei, em parte, essa discussão, mas sob o enfoque das cotas e políticas afirmativas no campo da educação. Até lá!

REFERÊNCIAS

BOURDIEU, Pierre. Razões Práticas: sobre a teoria da ação. Tradução de Mariza Corrêa. Campinas: Papirus, 1996.

FERNANDES, Florestan. A integração do negro na sociedade de classes. São Paulo, Ática, 1978.